A história não é tão simples, mas o título é 100% verdade. 

Meu avô era a pessoa mais culta que eu já conheci. Falava diversos idiomas, de latim a “um pouco de grego” (segundo ele mesmo).

Tenho certeza absoluta que o meu interesse por história vem muito por esse convívio com ele.

Assim como interesse por arte também. Ele conhecia tanto que uma vez, em um museu, apontou para dois quadros numa parede e me perguntou de quem eram. Respondi que eram do Picasso, crente que eu já estava abafando.

Ele confirmou que um era do Picasso, mas o do lado não. Era do Georges Braque, vizinho do pintor espanhol, que se inspirou (para ser educado) no companheiro mais famoso. Falou isso de cabeça.

Foto péssima, mas é a que eu tenho

Tinha uma época que meu avô me levava para a aula de inglês e, no caminho, ficávamos falando nomes de capitais seguindo a ordem do alfabeto, por exemplo. 

Esse tipo de curiosidade sempre me leva direto a ele.

Me lembro de levar para a escola, no dia do índio, um remo indígena. Daqueles que tem uma ponta que era usada como lança, pelo que aprendemos.

Ele tinha outros utensílios de tribos que eu nem faço ideia de como ganhou. Além de outras coisas pouco comuns que foram aparecendo na casa dele ao longo dos anos.

Era uma época muito diferente de hoje. 

Claro que essas coisas foram se perdendo com os anos e as mudanças. 

Outra lembrança que tenho é de alguns fósseis. Ele tinha um de peixe que era impressionante, aberto no meio, dando pra ver cada detalhe dos dois lados do animal petrificado. 

E isso me remete tanto a ele que eu acabei guardando dois que encontrei na casa dele, depois que ele morreu. 

Um claramente era uma ferramenta de pedra polida. Certamente do período neolítico, pelo que o ChatGPT me disse quando tentei descobrir. 

E tinha um outro que parecia algum animal marinho, com um casco em espiral comprido. Perguntei pro ChatGPT, porque podia ser algo ainda mais antigo. Queria até saber que animal era.

Descobri que é um coprólito.

Ou seja, cocô. Fossilizado, mas cocô. 

Sim, eu tenho fezes que me lembram meu avô. Claro que milhares (ou milhões) de anos de fossilização acabam deixando mais legal (e menos nojento). Mas meu ponto aqui é outro. 

E ele não tem nada a ver com arqueologia.

Eu dei essa volta toda para falar de storytelling. E você aguentou.

O título era curioso e instigante. Eu tenho certeza que essa vai ser uma das edições mais abertas da minha newsletter. É muito difícil ignorar uma chamada tão fora do padrão. 

Não só pelo cocô. Pela história que veio junto.

E eu podia ter ido direto ao ponto e ter feito um Tweet, ao invés de gastar esse monte de palavras para falar de um cocô pré histórico. 

Mas aí não teria a ligação emocional com meu avô. E até para você se importar com isso eu tive que “perder um tempo” fazendo essa conexão com alguém que você nem conhece. 

Usar histórias pessoais ajuda muito nisso. 

Acho pouco provável que você tenha herdado cocô. Mas certamente lembrou de alguma história na sua família que te fez ter o sentimento que eu tenho quando abro minha gaveta e vejo fezes petrificadas. 

Storytelling não depende de framework, nem de grandes estratégias. É sobre contar histórias mesmo.

Por isso que funciona. O vovô Diletto, que nunca existiu, vendeu milhões de sorvetes enquanto acreditavam nele.

Depois que ele se foi, mesmo sem nunca ter existido, a história da empresa perdeu força. E o sorvete, curiosamente, nem parecia mais tão bom.

No fim, não era sobre sorvete. Assim como isso aqui nunca foi sobre cocô.

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