Marketing da sorte - Luizletter #2

Algumas vezes vemos ações de marketing que parecem muito arriscadas, por envolverem a sorte, mas isso pode ser bem planejado.

Título de Copa do Mundo valendo uma TV

Na Copa de 2014 o Brasil entrou com uma chance de 36% de ser campeão, segundo Nate Silver, e as Casas Bahia, junto da Samsung, fizeram uma promoção agressiva. Comprando uma TV de 60 polegadas você compraria por apenas um Real uma outra TV de 51 polegadas se o Brasil fosse campeão.

Com mais de um terço de chances da seleção levar o título, parecia uma ação arriscada.

Obviamente fizeram cálculos e concluíram que era uma boa promoção mesmo se o Brasil fosse campeão.

Pra começo de conversa, todo mundo ficou falando da promoção e, por consequência, sobre Casas Bahia e Samsung. Além da marca Coreana ter colocado no meio da conversa uma TV gigante e de topo de linha. É uma divulgação de um produto premium que não é pra todo mundo, nem pra quem tinha certeza do título.

A TV que seria vendida por um Real certamente era de uma linha inferior e, certamente, tinham um bom estoque sobrando.

Ou seja, fizeram uma divulgação agressiva de uma TV que era pra poucos, que pode ter feito alguns irem além do que pretendiam para aproveitar a promoção no impulso e aumentaram a venda do produto top de linha.

Se desse errado, já tinha o hype, a marca ficou mais tempo em evidência e a perda financeira não seria tão grande. E tinha 74% de chance de não acontecer.

Valia a aposta.

Pelo resultado final da Seleção na Copa perigava ter que pagar alguma multa pras Casas Bahia por ter acreditado no título.

Seguro contra traição de ídolo

Os cartões American Express criaram um seguro pros torcedores da NBA. Se você comprasse a camisa de um jogador que trocasse de time, eles bancavam a troca por uma nova.

Ou seja, você não ia terminar com duas camisas do Ronaldinho Gaúcho quando ele saiu brigado do Flamengo (meu caso) e foi ganhar uma Libertadores no Atlético Mineiro.

Poderia trocar pela do Hernane Brocador, caso a compra tivesse sido feita 90 dias antes da traição, e não pagaria nada.

Parece arriscado, mas se a gente prestar atenção não é tanto assim.

Os 90 dias são um tempo bem razoável, ainda mais com uma liga que tem prazos definidos para trocas.

Além disso, a maioria das camisas vendidas é dos principais jogadores de cada time, que mudam menos que jogadores medianos e fracos. Esses atletas de ponta costumam ser negociados com longas novelas e muita discussão. É raro você ver um jogador de primeira linha que tenha trocado de time sem muita especulação.

Esse ano, o James Harden foi o jogador mais relevante a trocar de time. Chegou num certo momento que todo mundo já sabia que ele ia sair, só não tinha destino ainda. Ele fez corpo mole, se apresentou gordo, fez de tudo pra sair. Eu duvido que muitos torcedores do Rockets tenham comprado a camisa dele em 2021.

Torcedor que acompanha de perto não vai ser surpreendido numa troca dessas. Mas quando você tem o cartão que te dá uma vantagem, mesmo que você tenha 99% de certeza que não vai precisar, você escolhe ele. Ainda associa a marca ao seu time do coração e ela nem patrocina ele diretamente.

Salvando a empresa em Las Vegas

Em 2017 um texano dono de uma loja de colchões criou uma promoção onde ele prometia que devolveria o valor de qualquer colchão comprado com ele caso o time que ele torcia, Houston Astros, fosse o campeão da Major League Baseball daquele ano.

Não entendo nada de baseball mas, pelo que pesquisei, era um time com chance real de ser campeão, não era como um botafoguense fazer uma promoção dessas sem medo nenhum.

Então o cara foi comedido e fez um seguro para evitar uma catástrofe. Se vendesse até U$ 4 milhões ele estaria coberto.

Mas os Astros estavam fazendo uma grande campanha, então a galera animou na compra dos colchões.

Quando começaram as finais ele já tinha vendido U$ 13 milhões! Muito acima do valor do seguro.

A solução foi a menos tradicional que eu já vi.

Ele pegou uma bolada e apostou no título dos Astros. Ou seja, se o time fosse campeão, entraria um bom dinheiro pra ajudar a pagar os reembolsos. Se o time perdesse ele teria vendido milhões em colchões e só perderia a grana da aposta.

Acabou que os Astros venceram a World Series.

O dinheiro do seguro somado ao das apostas chegou quase ao valor dos reembolsos. Ainda faltou um pouco mais de U$ 2 milhões. Mas foi um prejuízo bem menor do que era esperado.

Acabou que o dono da loja terminou a temporada um pouco mais pobre, mas com uma boa divulgação, e ainda viu seu time ser campeão. Pagou todo mundo e disse que os clientes ficaram satisfeitos.

Mas não repetiu a promoção depois disso.

Marketing de sorte não é baseado na sorte

Sem contar que tudo isso certamente tem muito cálculo. Samsung e Casas Bahia calcularam muito bem os custos da campanha caso o Brasil fosse campeão.

A American Express deve ter levantado até o número de camisas vendidas de jogadores que mudaram de time.

O dono da fábrica de colchão eu já acho que foi mais malandro que planejado.

Estratégias baseadas em sorte precisam ser bem embasadas ou você pode acabar tendo que se virar no cassino pra não falir.

O excelente Planet Money tem um episódio onde conta a história do Mattress Mack, dono da loja de colchões. É em inglês, mas tem a transcrição, pra quem lê no idioma melhor do que ouve, ou só pode consumir podcasts por texto.