Muitos não sabem mas eu já trabalhei como blogueirinho. Não era a ideia, eu não tinha sido contratado para isso, mas foi a melhor coisa que eu poderia fazer na época.

Em 2017 eu fui contratado como designer, no Zoológico de Brasília.

Até aí era só um trabalho normal. Eu chegava lá na hora certa, trabalhava, ficava entediado, e esperava a hora de ir embora.

Mas eu ficava MUITO entediado. Não tinha tanta demanda de design no Zoo. Eu podia ter ficado só parado na minha sala procrastinando, mas tinha coisa mais legal pra fazer.

Eu comecei a andar mais pelo parque, sem muito objetivo, acompanhando o que acontecia.

Você me encontraria mais ou menos assim.

E quando comentava com amigos coisas legais que aconteciam lá, mas quem está fora não fazia ideia, todo mundo achava legal.

Eu comentava que os animais não eram retirados da natureza, eram indivíduos que não sobreviveriam na natureza. E, sempre que possível, participavam de programas de reprodução para que os filhotes pudessem ser levados a locais seguros para essa nova geração poder viver livre.

E até coisas mais simples, como lobos-guará brincando com cocos recheados com carne (porque era bom para a parte mental deles) ou até que o elefante tinha um banho semanal dado por um caminhão pipa.

Coisas tão óbvias que o pessoal do Zoológico nem entendia porque era interessante. Mas, para a população em geral, era incrível.

Mas não era designer?

Eu conseguia resolver as minhas demandas ainda de manhã. Muitas vezes era só um card de Instagram, com muito mais texto na imagem do que deveria. Só que eu não tinha liberação para sair postando no perfil do Instagram.

Mesmo assim ainda dava para propor algumas coisas legais que o público curtiu. Como diversas asas de animais (com textos sobre eles) para os visitantes tirarem fotos com elas.

Aí eu falei com meu chefe sobre a ideia de mostrar o dia-a-dia do Zoo. Mas ele disse que o presidente não gostava muito da ideia e tal. Na realidade, acho que ele nem entendeu muito bem o que eu estava propondo e já sabia da resistência interna.

Eu já seguia outros Zoológicos pelo mundo, mas eles não faziam o que eu queria fazer. Só que um dia eu encontrei no perfil do parque de Londres que eles tinham ganhado uma picape da Toyota e mostraram como ela era usada.

Mostrei isso pro meu chefe, dizendo que poderia até abrir espaço para patrocínios (o olho de todo mundo brilha quando você fala em captar mais dinheiro) e ele já mudou pra “Vamos ver”.

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Como eu ainda não tinha aprovação, não podia usar o perfil oficial para isso. Mas todo domingo um funcionário do Zoo ficava responsável pelo local todo. Tinha que dar voltas por lá, verificar quais pipoqueiros tinham ido, se estava tudo sob controle, se tinha algum problema veterinário, era o responsável por tudo.

E, no meu dia, eu aproveitei para fazer no meu perfil pessoal uma amostra do que eu tinha em mente. Eu fiz uma visita guiada interativa, pelos Stories.

Eu fui do início do Zoológico pedindo para votarem no próximo recinto para visitar e eu explicava algo de lá. Da minha cabeça mesmo, que eu tinha aprendido nos meus passeios.

E deu MUITO certo. MUITA gente engajou, comentou, votaram, deu um resultado muito melhor do que eu esperava.

Mostrei pro meu chefe que acabou aprovando.

V1

Ele autorizou, mas o presidente não. Nem sabia, na verdade, que a gente ia fazer isso. Inclusive, estava de férias.

Em teoria, eu tinha 3 dias de carta branca pra conseguir criar algo que fosse bom o bastante para ser liberado oficialmente. Ou, quem sabe, ser demitido por fazer o que não tinha sido 100% autorizado.

A primeira pauta que eu peguei foi ir no hospital veterinário do Zoológico mostrar uma loba-guará que tinha sido atropelada. Chegou lá com diversas fraturas, hemorragia, nas últimas. E em 3 meses já estava quase 100% recuperada para poder voltar para casa.

Coloquei veterinário pra falar, mostrei a loba, e explicamos que era o tipo de coisa que o Zoo fazia e ninguém sabia.

De primeira já teve uma recepção incrível. Os (poucos) seguidores adoraram e comentaram.

Aí passei mais dois dias mostrando outras coisas e o presidente voltou de férias.

Ainda de manhã me chamou na sala dele, elogiou o trabalho (sem nem ter visto os comentários positivos), liberou pra continuar e ainda me liberou o uso de um drone que o Zoológico tinha guardado num depósito.

E eu aproveitei esse drone até para filmar a soltura daquela loba-guará, na casa dela, a Floresta Nacional. Assim que ela foi liberada pelos veterinários.

Carta branca

Agora eu tinha liberação do presidente e já tinha um bom relacionamento com o resto dos funcionários (de diretores a tratadores). Mas eles estavam acostumados demais com os trabalhos do dia-a-dia.

Eu pedia pra eles me informarem de algo interessante, quando acontecesse, mas eles achavam tudo muito normal. Além de muitas vezes esquecerem de avisar a tempo e só me contarem quando já era tarde demais.

Mas tinha um lugar com muita necessidade de criação de conteúdo.

A ouvidoria.

Fui lá e peguei a lista das reclamações mais frequentes. A mais repetida, disparadamente, era que os recintos pareciam abandonados por estarem cheios de mato.

Uma vez por semana eu entrava num recinto (quando os animais estavam presos em outra área) e mostrava lá de dentro que era daquele jeito porque os animais preferiam assim.

Aí tinha reclamação de que não dava pra ver os animais. Eu explicava que tinha área para eles se esconderem, se não quisessem aparecer, para o bem estar deles. E que era melhor evitar os horários mais quentes que eles se escondiam mais.

Reclamavam dos animais terem sido retirados da natureza e eu mostrava uns que tinham sido resgatados de circo, de casas, mostrava por que eles estavam lá.

As reclamações despencaram e recebíamos elogios diariamente.

Mas eu não queria viver só de reclamação. Queria saber de tudo que acontecia para poder filtrar o mais legal, já que tudo era normal para todo mundo.

Aí eu descobri que na diretoria de animais tinha um café da manhã coletivo. O pessoal ia chegando com uma comida, juntava, e ia todo mundo conversando ali. Diretorias de mamíferos, aves e répteis, trocando sobre tudo que ia acontecer no dia. E até um pessoal do hospital veterinário. Exatamente o que eu precisava e eu só tinha que estar presente ali, ninguém precisava me avisar de nada.

A vida secreta dos animais do zoológico

Uma das ações mais legais que pude mostrar era da equipe de bem-estar animal. Que viviam criando atividades para os animais se manterem sãos. Como aquela da carne dentro do coco.

Mas também criavam uns “labirintos” de galhos para as serpentes escalarem. Escondiam frutas pelo recinto para os animais encontrarem.

E até mostrava uma consulta oftalmológica num rinoceronte enquanto ele ficava quieto, na área determinada, recebendo os comandos que ele foi treinado para ficar da maneira certa.

Transfusão de sangue de tamanduá, dentista de tigre, ultrassom em anta, que não precisava de imobilização porque se fizesse carinho com a vassoura ela deitava e deixava passarem o aparelho.

MUITA coisa legal que ninguém sabia.

Uma vez eu fui acompanhar o Zoo noturno. Que era um passeio guiado, à noite, onde só os guias iluminavam algo com uma lanterna bem fraca, para não incomodar muito os animais. Só que eu não imaginei que fosse tão escuro, e isso QUASE atrapalhou a minha sequência de Stories. Mas tive que dar um jeito.

Chegamos a ter seguidores que defendiam o Zoológico nas redes sociais (se alguém criticasse) e mandavam o print para mostrar para nós. E, o mais legal, usando os argumentos que aprenderam no Instagram.

Indo além

Eu também fazia conteúdos mais divertidos:

Qual a diferença entre tartaruga, cágado e jabuti?

E o que diferencia os chifres de um rinoceronte, de um cervo dama e dos de um adax?

Chegamos a ganhar 2 mil seguidores, organicamente, em um mês.

Quando o Zoo de Brasília sediou o congresso nacional de Zoológicos tinha uma visita guiada para os participantes. Só que era MUITA gente. E a diretora de bem-estar animal foi mostrar as atividades de enriquecimento para os animais.

Mas nem todo mundo conseguia ouvir porque era muita gente.

Aí eu peguei metade do grupo para eu ir apresentando para eles as atividades. Fiz isso porque eu conhecia tudo aquilo por acompanhar a equipe de enriquecimento animal e ter aprendido. Afinal, eu precisava falar sobre isso toda semana, mais de uma vez. Então eu aprendi e sabia explicar.

Até fui o mestre de cerimônia do congresso.

Eu transformei o feed que era uma zona em algo focado só em fotos, sem textos nas imagens, criando uma identidade que não precisava de moldura nem logo. E com as fotos que eu mesmo tirava e tratava.

Foi o trabalho mais legal que eu já tive. Não só pela diversão mas também por causa do impacto imediato que eu via acontecendo.

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