Queijos e governos - Luizletter #3

Tem queijo que a gente come que nem faz ideia que era culpa de um sindicato ou de promessa de campanha.

O Sindicato do Queijo Suíço

Às vezes acontecem efeitos colaterais inesperados quando você tenta resolver um problema específico.

Imagina um país que exporta um monte de queijo pra todos os vizinhos. Aí tem a primeira guerra mundial, ao seu redor, e mesmo se mantendo neutro (e não perdendo capacidade de produção) não sobrou ninguém em volta em condições de comprar o seu produto.

Foi assim que o governo suíço criou o sindicato do queijo, para organizar a produção do queijo de ponta a ponta. Do leite até o preço de venda. Passando pelos tipos de queijo que poderiam ser feitos. Diminuindo a variedade de mais de mil opções diferentes para apenas 7. A grande maioria fabricando Emmental e Gruyere.

Mesmo que os subsídios governamentais fossem para fomentar a produção, o sindicato podia autorizar, ou negar, a fabricação do tipo de queijo que quisesse para quem quisesse sem dar explicações.

Já era um cartel.

Com o fim da segunda guerra a exportação voltou a ser uma opção, mas o sindicato procurava uma maneira de aumentar o consumo de queijo (principalmente Emmental e Gruyere). Aproveitaram uma comida típica dos camponeses, sem nenhum glamour, e transformaram em algo sofisticado. Que fosse consumir queijo suíço, literalmente, aos baldes.

Depois de vários anos, e muitas denúncias de corrupção, o Sindicato do Queijo Suíço acabou caindo. 

Mas o fondue tá aí até hoje como uma grande tradição suíça.

Pouca gente associa ele a comida de camponês e ninguém pensa em sindicato ou guerras. O marketing fez o trabalho direitinho.

O Queijo do Governo

Nos EUA acabou que o governo fomentou, acidentalmente, outro tipo de queijo. 

O presidente americano Jimmy Carter tinha prometido, na campanha, aumentar o preço do leite, para ajudar os fazendeiros. Mas não conseguiu fazer isso diretamente. Então deu um jeito de aumentar a demanda.

Não dava pro governo só comprar quantidades gigantescas de leite que logo estragaria. Se saísse distribuindo ia acabar derrubando o preço de venda dos produtores. Então precisavam de uma alternativa. 

Dentro das opções de derivados de leite estava o queijo.

Definiram o preço que pagariam pelo queijo (U$ 39 por um bloco de 18 quilos) e era só vender direto pro governo. Com o preço alto e compra garantida aumentou a procura por leite, o que fez subir os preços, como era a intenção inicial.

Mas também fez com que muita gente procurasse produzir o máximo de queijo possível. A única limitação é que precisava atingir um nível de qualidade pré definido. E era chamado de queijo do governo. Se alcançasse isso, tava comprado. 

O mais popular era um Cheddar de nota A.

Aí começou outro problema. Como guardar tudo isso? Com tanta produção, e evitando distribuir demais e derrubar o preço geral do queijo, precisavam de grandes depósitos. Chegaram a guardar toneladas deles em cavernas perto de Kansas City.

Isso só resolvia parte do problema. Afinal, é difícil arranjar solução pra U$ 2bi, em queijo, num ano. 

Distribuíram para escolas, exército e para bancos de comida, já que eles alimentam quem não teria condição de bancar a própria comida. Então não interferia no preço do queijo no mercado.

Mas tinha outro problema. Era complicado distribuir grandes blocos do alimento. Precisaram processar o cheddar para durar mais e ser mais fácil de enviar. 

O queijo do governo foi tão difundido que até hoje tem gente que procura a receita ideal para refazer. Como era muito bom para derreter no hambúrguer, que é super tradicional nos EUA, certamente ajudou a difundir ainda mais o cheddar.

É muito legal como uma série de ações criam tendências que nem são imaginadas quando começaram lá atrás.

Não dava pra esperar que um sindicato criado para salvar os produtores de queijo ia criar uma tendência mundial, e sofisticada, a partir de uma tradição camponesa. Nem que a proteção a produtores de leite iria encher cavernas de queijo e deixar o cheddar ainda mais famoso nos EUA.

O Planet Money (sempre ele) tem episódios sobre as duas histórias, mais focados na parte econômica:

Ainda fecho indicando a hamburgueria de um amigo que acabou de abrir aqui em Brasília: