Todo time relevante faz artes antes das partidas. Geralmente é algo mais simples com data, hora do jogo, e alguma imagem do clube.

Mas o Flamengo tem ido além. Cada imagem pré jogo poderia ser um cartaz vendido nas lojas do clube.

Na arte antes do FLAxFLU, o nível de respeito foi tão alto que até a torcida do Fluminense elogiou.

Não só pelo design em si, que já ficou incrível, mas pelo clima. Jorge Ben (Flamengo) e Cartola (Fluminense) nas janelas, camisas penduradas, zero deboche barato, zero tentativa de diminuir o outro. Um convite para o jogo que é mais um retrato de cidade do que uma provocação de rede social.

No Brasil, isso é quase um bug no sistema.

A maioria dos torcedores cresceu aprendendo que rivalidade se constrói no grito, no apelido pejorativo, na tentativa constante de apagar o outro. Não citar o nome do rival vira regra não escrita. Em reunião de diretoria se fala “o outro time”. Em apresentação interna, “o rival”. Em campo, tem clube que fiscaliza até a cor da chuteira para não lembrar o adversário. No Corinthians, verde não pode. Tentaram até pintar o gramado de preto (mas a FIFA não permitiu).

Como se mencionar o rival fosse sinal de fraqueza.

O Flamengo foi para o lado oposto.

Nos últimos tempos, o clube vem adotando uma postura de respeito institucional bem clara. Cita o adversário pelo nome, reconhece a história, cria artes que colocam os dois lados de maneira civilizada. Em um nível tão consistente que, em um jogo contra o Vasco, uma postagem chegou a ser apagada porque parte da torcida achou que o rival estava “bem demais” na narrativa.

O mais interessante é que o Flamengo não recuou, como costuma acontecer nesses casos. Ajustou o tom, mas manteve a linha.

Isso diz muito sobre maturidade de marca.

Marca forte não tem medo de contexto. A Coca-Cola não provoca a Pepsi. O McDonald’s não ataca o Burger King. Não precisa diminuir o outro para se afirmar. Não se sente ameaçada por cores, símbolos ou palavras. Pelo contrário, quanto mais confortável você está com quem você é, mais fácil é reconhecer o valor do entorno.

Quem precisa se provar é o menor.

Existe uma diferença grande, que muita gente mistura de propósito, entre rivalidade e insegurança.

Rivalidade é jogo, é provocação na hora certa, é zoeira quando ganha, é meme bem colocado. O Flamengo faz isso também, e faz bem. Insegurança é achar que qualquer menção ao outro te enfraquece. Que o simples ato de citar o nome do adversário rouba protagonismo.

Esse medo costuma aparecer em marcas menores, ou em marcas grandes vivendo crises de identidade.

Quando você olha para o posicionamento do Flamengo, a mensagem implícita é simples. “Eu sei quem eu sou”, não preciso fingir que você não existe. Posso te respeitar institucionalmente e ainda assim querer ganhar de você dentro de campo.

E esse é o tipo de ação que reflete o clima de boa vizinhança que costuma reinar no Rio (apesar de brigas pontuais de torcidas organizadas). O Maracanã é, provavelmente, o estádio da Série A que melhor recebe os visitantes. Não é raro ver torcedor rival andando no meio de rubro-negros nos arredores do estádio. Além do setor misto.

É um raciocínio que vale muito além do futebol.

Empresas que evitam mencionar concorrentes, que tratam o mercado como se girasse só ao redor delas, normalmente estão tentando esconder alguma fragilidade. As marcas mais sólidas fazem o contrário. Citam, comparam, contextualizam. Não por generosidade, mas por confiança.

No fundo, respeito institucional não enfraquece rivalidade. Ele a qualifica.

Porque quando você vence alguém que foi tratado como irrelevante, a vitória vale pouco. Quando você vence alguém reconhecido, histórico, digno, a vitória pesa mais.

Talvez seja por isso que essa arte funcionou tão bem. Ela não tenta humilhar. Ela enquadra o clássico como ele é: um encontro grande demais para ser reduzido a piada de feed.

Rivalidade não exige desrespeito. Exige identidade forte o suficiente para não confundir uma coisa com a outra.

Isso tudo não quer dizer que tudo foi lindo no Twitter. Apesar dos elogios de vários tricolores, torcedor é torcedor. E a zoeira fica muito mais livre. Como nesses exemplos que vou colar aqui.

E faz parte, tá tudo certo.

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