Desde que a Nike divulgou a segunda camisa que a Seleção vai usar na Copa, boa parte do Twitter tem dado chilique por causa do Jordan na camisa da CBF. O argumento é quase sempre o mesmo: "O que um jogador de basquete está fazendo no peito do futebol cinco vezes campeão do mundo?".
Mas, se a gente aprofundar um pouco percebe que não é só uma silhueta de um jogador saltando. É uma das maiores marcas esportivas do planeta, que por sinal é parte da maior marca esportiva do mundo.
Para entender o tamanho da mesa onde estamos sentados, vamos aos números frios, porque aqui a gente não vive só de palpite de mesa de bar. A Nike não está fazendo um "teste". Ela despeja cerca de U$ 35mi por ano nos cofres da CBF em um contrato que vai subir para U$ 100mi/ano. É um dinheiro que sustenta toda a estrutura do nosso futebol, das divisões de base ao cafezinho da diretoria.
E por que ela decidiu colocar a marca Jordan agora?

Apesar de ser uma marca que, sozinha, fatura U$ 7bi/ano, ela ainda não é muito forte no futebol. Não é a primeira experiência dela no esporte, o PSG já entrou nessa faz algum tempo. Mas o time francês, apesar de rico e até ter vencido a Champions recentemente, não tem muita tradição no futebol
A Seleção Brasileira tem.
Então a Nike vai aproveitar para fazer uma transferência de prestígio, levando o reconhecimento e tradição da Seleção Brasileira para a Jordan.
Aí surge aquela ideia, geralmente vinda de quem olha para o marketing com uma visão romântica (e um tanto míope), de que o Brasil deveria ter uma "marca própria". E o nome que surge, claro, é o do Rei Pelé. O pai do Neymar, através da NR Sports, inclusive comprou os direitos da marca por uns R$ 42 milhões. É uma bela homenagem, um licenciamento nostálgico digno de aplausos, mas vamos ser realistas. Comparar a estrutura de licenciamento de imagem do Pelé com a máquina de guerra industrial, logística e tecnológica da Nike/Jordan é como tentar disputar uma corrida de Fórmula 1 pilotando um Opala 74 impecável. É lindo de ver, tem história, mas não aguenta a primeira curva do mercado global de alta performance.

Quem mais ganharia numa polêmica dessas seria a família que tem a marca que muitos apontam como a solução ideal para ocupar o espaço na camisa da CBF. Mas essa ainda nem é uma empresa de vestuário esportivo para, sequer, pensar nisso.
Hoje, a marca Pelé é só uma silhueta em um Power Point.
E obviamente inspirada na do melhor jogador da história do basquete, que deixa ainda mais curioso.
A Jordan é gigante no basquete, muito forte no streeetwear e quer entrar de vez no futebol. Já faz parte do estilo de vários jogadores fora dos campos, mas durante os jogos tem muito mais exposição.
Talvez até por essa relação mais casual com o esporte tenha ajudado a criar uma camisa que foge tanto do tradicional e, por isso, recebe ainda mais críticas. Pelo menos acharam um sapo colorido para conectar com o Brasil.

A ironia da coisa é que Michael Jordan e Pelé habitam o mesmo Olimpo. A Jordan Brand não é "marca de basquete", ela é a marca do "melhor que já existiu". Ao colocar o Jumpman na Amarelinha (ou na Azulzinha, neste caso), a Nike está dizendo que a Seleção Brasileira pertence a esse mesmo estrato de elite absoluta.
A Seleção não precisa disso, eu concordo. Mas pra Nike é importante fazer essa associação porque isso reflete na própria marca. E a empresa americana despeja uma fortuna nos cofres da CBF para decidir se vai ter uma vírgula ou uma silhueta na camisa do Brasil.
No fim das contas, a polêmica vai passar, as vendas vão explodir e a camisa vai virar item de colecionador. Porque, no marketing, a tradição é um alicerce maravilhoso, mas é a relevância cultural que paga as contas e mantém a marca viva.
Daqui a 10 anos, onde boa parte dos clubes e seleções patrocinados pela Nike tiverem seus uniformes com o Jumpman, alguém vai lembrar da camisa reserva da Seleção.
Já a Pelé Brand talvez esteja patrocinando uns dois clubes da Série B, além da SAF Santos da família Ney.
PS: Nem acho a discussão absurda. Mas vim aqui defender o lado do marketing. No Twitter eu cheguei a ver argumentos completamente sem sentido. Um dos piores foi que a Nike nem quis fazer isso com a seleção dos EUA, como se alguém se importasse com a segunda camisa de uma seleção coadjuvante.

