Existe um exame de imagem que o Santos fez, mas não enviou para a CBF antes da convocação de Neymar para a Copa do Mundo.
Esse detalhe parece técnico, quase burocrático. Mas é talvez a informação mais reveladora de tudo que aconteceu nas últimas semanas, não sobre a panturrilha do Neymar, e sim sobre como a gente processa informação quando tem um lado para defender.
O Santos, clube no qual Neymar joga e onde seu pai exerce grande influência, soltou uma nota dizendo que a lesão era leve, um edema simples. Sem o exame de imagem. Ancelotti acreditou, viu o apelo, convocou.

Os jornalistas mais apegados à ideia da presença do menino Ney na Copa aceitaram prontamente a versão santista. Sem questionar nem investigar.
Outros jornalistas resolveram ir atrás de mais informações,e chegaram a fontes que afirmavam que a lesão era mais grave do que o Santos admitia. Foram imediatamente acusados de "torcer contra o Neymar", de ficarem felizes com o sofrimento do craque.
Quando a CBF fez seus próprios exames e confirmou. Lesão muscular de grau 2, mais séria, fora dos amistosos, possível desfalque na estreia da Copa, esses jornalistas não comemoraram. Eles simplesmente já sabiam porque foram atrás da informação.
Quem foi atrás da informação se antecipou. Quem quis acreditar, acreditou.
A falácia mais cômoda do mundo
Tem nome técnico para o que aconteceu aqui. Chama motivated reasoning (raciocínio motivado) a tendência de analisar informações não para descobrir o que é verdade, mas para confirmar o que já queremos que seja verdade.
O mecanismo é simples e perigoso. Você não começa pela evidência e chega a uma conclusão. Você começa pela conclusão, que quase sempre é a que beneficia seu grupo (time, religião, política…), e trabalha de trás para frente para achar as evidências que a sustentam. E quando aparece alguém com uma evidência inconveniente, você não refuta o argumento. Você troca o argumento por um que seja mais fácil de atacar.

Isso também tem nome, falácia do espantalho. Em vez de responder ao que o jornalista disse (a lesão pode ser mais grave do que o Santos admite), você responde a uma versão distorcida (como dizer que alguém é contra o Neymar só por posicionamento político). O espantalho é mais fácil de derrubar do que o argumento real.
Mas antes de achar que isso é coisa de fã de futebol destrambelhado, o mesmo mecanismo aparece em lugares onde as apostas são muito mais altas.
O custo do clubismo
Investidores individuais, ao pesquisar informações sobre uma ação em que já acreditam, buscam quase exclusivamente confirmações das suas crenças. Evidências contrárias eram ignoradas ou descartadas. O resultado previsível, os investidores com maior viés de confirmação foram os que perderam mais dinheiro.
O mesmo padrão aparece em analistas econômicos. Não é coincidência que projeções de crescimento tendam a ser mais otimistas quando o analista simpatiza com o governo vigente, e mais sombrias quando o time adversário está no poder. Os modelos são os mesmos, os dados são os mesmos, o time é diferente.
A gente ri do torcedor que vê o pênalti não marcado como injustiça quando é contra o seu time e como decisão correta quando é a favor. Mas esse torcedor está fazendo exatamente o que o analista de mercado faz na planilha. Ou o que qualquer um de nós faz quando a informação ameaça a nossa identidade de grupo.

Todo mundo tem um time
O problema não é ter opinião. É achar que a sua opinião não tem um time.
79% dos brasileiros percebem o país muito dividido politicamente. Mas somente 31% admitem se identificar fortemente com um lado. Ou seja, quase ninguém acha que é do time. Todo mundo acha que só está com a razão.
E o futebol, a política e o mercado financeiro são apenas os cenários mais visíveis. O mesmo acontece na dieta que você segue, no smartphone que você comprou, na religião que você pratica, na marca de carro que você defende em discussão de família. Quando algo vira parte da sua identidade, você para de analisar e começa a advocacia.
O exame de imagem que o Santos não mandou para a CBF estava disponível desde o começo. A informação existia. O que variou foi quem estava disposto a procurar.
Às vezes o time que você defende não é o que está na sua camisa. É o que está na sua cabeça.

