Imagine que você está em 1845. Friedrich Engels, com uma pena na mão e muita indignação no peito, escreve sobre a miséria operária na Inglaterra vitoriana. Ele descreve o cheiro de carvão e a degradação humana em seu clássico A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Recentemente, um comentário no Twitter sugeriu que, em vez de assistir a um vídeo de 90 segundos gerado por IA, as pessoas deveriam ler esse livro para "salvar o planeta".

E o vídeo nem entrava com toda essa profundidade no assunto. Era só algo criativo que mostra (com algum grau de realidade) como deveria ser londres lá pra 1800.

@chloe.vs.history

4/10 wouldn’t recommend 🎩 though if anyone knows where to find that guy at the end hmu #victorian #1800s #historytok #historytime

A tese é que o gasto de água dos servidores seria um crime ambiental. Mas essa visão cria um muro de exclusão. Reduzir o conhecimento a "tem que ler o livro" deixa muita gente de fora. Para um jovem da Geração Z ou alguém com uma rotina exaustiva, um vídeo de 90 segundos não precisa ser um documentário para ter valor. Ele é a faísca. Ele desperta a curiosidade que, talvez, leve o sujeito à livraria depois. O vídeo é a porta de entrada, o livro é o aprofundamento. Ignorar isso é ignorar como diferentes faixas etárias e níveis de instrução consomem cultura hoje.

Mas nem era esse o assunto que eu queria abordar aqui.

A matemática do "Chilique"

Vamos aos dados, porque o argumento aqui nunca se apoia apenas em opinião.

Quanto custa, em água, esse vídeo de 90 segundos? Estimativas atuais apontam que gerar uma imagem ou um trecho curto de vídeo via IA consome o equivalente a 500 ml de água (uma garrafinha pequena) para o resfriamento dos servidores. Em comparação, para aquele livro de papel chegar à estante, foram consumidos cerca de 155 litros de água no processo de celulose e gráfica. E essa conta ainda nem chegou na livraria.

O grande argumento contra a IA é o resfriamento dos servidores. Sim, eles precisam de água, mas há uma diferença entre consumo e uso. Nos data centers modernos, a água circula em sistemas fechados. Ela entra, resfria o chip e volta. Ela não simplesmente desaparece do planeta, volta para o ciclo e continua resfriando servidores.

No Brasil, o setor agropecuário é responsável por cerca de 72% do consumo de água do país. Se o crítico comeu um hambúrguer enquanto digitava, ele gastou mais água do que se tivesse gerado uma temporada inteira de vídeos.

O Vazamento Invisível

Mas o buraco é mais embaixo (literalmente). Se o assunto é desperdício de água potável, o vilão não está no Vale do Silício, mas na nossa infraestrutura urbana. No Brasil, a ineficiência das concessionárias faz com que quase 40% da água tratada seja perdida em vazamentos e fraudes antes de chegar às torneiras. Estamos jogando rios fora por incompetência técnica, mas o "efeito manada" prefere culpar a GPU da NVIDIA porque é o vilão da moda.

É mais fácil odiar o futuro do que consertar o cano da rua.

O que sobra quando o chilique passa

Não é que a IA é "grátis" para o planeta, mas que toda inovação é julgada por uma régua que ninguém aplica ao que já é familiar.

Não se deixe paralisar pelo barulho da multidão. Muita gente vai tentar te vender medos disfarçados de ética. Analise os dados, entenda o contexto e não abra mão de ferramentas que amplificam sua comunicação por causa de um moralismo de conveniência. No final das contas, o vídeo de 90 segundos pode ser o que faltava para alguém se interessar por Engels, Londres em 1800 ou até só ser um videozinho divertido mesmo.

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